bolsas_estudo

A imprensa de Balzac e o galucho


Por Osni Alves J

Recentemente saquei da minha pequena biblioteca um dos títulos que mais gosto – Os jornalistas, de Honoré de Balzac. Um livro é sempre uma boa companhia. Meus favoritos, no campo da literatura sociológica, são Balzac e Gabriel García Márquez, dois dos quais não faltam na minha casa. O primeiro atuou na França do século 18. O segundo, um exímio repórter e escritor colombiano.

Mas, voltemos a Balzac. No referido livro, que é uma obra construída a partir de duas outras, “Monografia da imprensa parisiense e Os salões literários”, o autor destila seu veneno contra as redações da época com a célebre frase: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”, mas declara a importância da atividade para o equilíbrio do governo vigente, seja democrático, monárquico ou outro: “O poder, que dorme em enganosa segurança, só compreenderá seus erros contra a inteligência à luz de um incêndio iniciado por algum pequeno livro”. Referia-se aos panfletos, progenitores dos jornais.

É interessante perceber este antagonismo que rodeia a imprensa, principalmente entre os que dela vivem. Trata-se de uma relação de amor e ódio, uma infinita transição de sentimentos. No Brasil, principalmente em época de eleições, isto fica ainda mais evidente. Inclusive, a exemplo da imprensa norte-americana, que se posiciona politicamente, abertamente, em terras tupiniquins o contexto está ficando cada vez mais idêntico, mas não por força da liberdade de expressão e imprensa, e sim, por conta da concorrência entre os grandes grupos.

“Já tentaram me corromper”

Porém, até neste ponto Balzac foi enfático, dizendo: “A imprensa não é tão livre quanto o público imagina. Na França e no estrangeiro, segundo esta expressão liberdade de imprensa, há fatos impossíveis de serem contados e cautelas necessárias com os fatos de que falamos. Assim, o jesuitismo, tão estigmatizado com Pascal, era menos hipócrita que o da imprensa. Para sua vergonha, a imprensa só é livre frente aos fracos e às pessoas idosas.”

Em um dos trechos mais ácidos de sua obra, Balzac afirma o seguinte: “Os jornalistas, verdadeiros reizinhos adulados, fazem tremer os governos, fazem e desfazem as reputações, suscitam invejas e rancores. E, mais frequentemente do que se imagina, também transformam sua influência em vantagens materiais da forma mais abjeta.”

Esta declaração traz à memória a questão da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista. Além de reserva de mercado para aqueles que optaram por esta carreira, o documento não é garantia de muita coisa, mas ajuda a nortear, regulamentar e até mesmo refrear índoles mais afoitas de empresários menos escrupulosos. É claro, tudo na devida proporção, pois todos estão à mercê de serem corrompidos a qualquer momento, como diz o polêmico apresentador Datena (Brasil Urgente, Band): “Já tentaram me corromper, mas ainda não chegaram ao meu preço.”

Exótico e anedótico sem importância

Não há um motivo único e que explique o porquê deste modelo de negócio da imprensa – hoje mídia – brasileira. Há muitas especulações em torno do tema, poucos estudos, porém. Balzac traz a informação, embora pautada na realidade dos séculos 18 e 19, mas, ainda coerente com o segmento no mundo todo, explicando: “Todo jornal (leia-se mídia) que não aumenta sua massa de assinantes (leia-se público), seja ela qual for, está em decrescimento”.

Quase ia esquecendo e o leitor deve estar se perguntando o que é o tal “galucho” no título deste artigo. Trata-se de uma palavra de origem espanhola que Balzac utilizou em seus artigos para se referir ao Brasil por trazer a concepção de exótico e anedótico, de acordo com nota dos editores. Já segundo o Aurélio, significa novato, inexperiente. É como dizem: o Brasil não é para amadores.

Compartilhe
Entidade:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *